05/04/2009
Inês Pedrosa ll
” Creio que nunca te vi doente — a não ser de amor. Cultivavas o vício da paixão com um método implacával. Corrias em contra-relógio. Procuravas a imobilidade de um tempo-pedra que já era o teu.Tu foste simplesmente à tua vida e eu fui à minha. Como sabes, eu vivo por relâmpagos; contigo partilhei uma trovoada um pouco mais longa que o habitual. De qualquer modo, a morte espreita sobre todos os prazeres dessa cronologia a que nos agarramos para escapar ao tempo. O que somos para além do que vamos sendo? O meu além era tu– íman da minha íntima, impessoal temporalidade.Tu. Vias a vida assim: um clube onde ganha o que mais depressa conseguir caçar e comer as qualidades dos outros. E isso, para ti não era mentir. Entraste no mundo especializado onde mentir era diferente de omitir. E a traição só existia quando muito repetida, nos mesmos lugares, com a as mesmas pessoas. O teu código moral burocratizou-se; havia alíneas para todas as infrações. E mesmo as maiores passaram a ter pouco valor. A vida tornava-se assim, incontida. Demasiado simples e complexa. Música em crescendo, ensurdecedora. Sem qualquer verdade de partida. Há tantas coisas que nunca te disse– e dizias tu que eu falava demais.”
